Os dois amigos, sentados à varanda, serviam-se de chá e teciam comentários a respeito da vida. As esposas haviam entrado para tratar de assuntos domésticos, enquanto junto deles o pequeno David entretinha-se a brincar com bolhas de sabão.
- Sem dúvidas, meu amigo. Foi um grande passo para a inteligência do homem, quando o pensamento científico rompeu os grilhões da ilusão religiosa e arrancou o povo da ignorância. Hegel muito claramente definiu esta questão, quando declarou que a religião é o ópio do povo. “O homem faz a religião, a religião não faz o homem”, disse ele, acrescentando que vivemos num mundo invertido. Deus é tido pela massa como o criador da vida, mas o que se sucede é o contrário. O homem criou Deus para conferir sentido à sua existência medíocre.
- É fato, Alfredo. Assim, dá-se à idéia de um ser superior a explicação da vida, sendo que esse próprio ser é inexplicável. Muda-se apenas o endereço do mistério.
- Correto, Vagner. Deus é a fuga dos fracos para a ausência de sentido da vida. Esta não é mais do que um acidente de percurso do universo. Imagine... não passamos de poeira estelar. Em todo o vasto espaço sideral, há somente matéria e gravidade, afetando-se mutuamente, rumando para a destruição. Qual o sentido da vida, tendo nascido numa mancha escura qual é o nosso planeta, quase no extremo de uma galáxia perdida entre milhares de outras galáxias? Deus? Santa ignorância, isso sim! Te ris, não é mesmo? E é deveras ridículo. Frente à idade do universo, a vida na Terra é apenas um ínfimo instante, uma minúscula parcela de tempo, uma convergência de probabilidades que gerou a exceção que somos eu e tu, nossos ancestrais e todas as formas de vida nessa nau azul, rumando para a completa extinção, pois nada é constante no universo. Veja essas bolhas de sabão. São a ilustração da vida. A esfera de sabão surge, carregando em seu interior um amontoado mais ou menos coerente de virtudes e vícios, esperanças e ilusões, e persiste em sua breve existência, ascendendo ou decaindo, até desfazer-se instantaneamente... e o que sobra? Nada, meu amigo, apenas ar. O nada era antes, e nada se torna depois. A explicação é simples: não há Deus. Apenas bolhas de sabão, seguindo-se umas às outras, umas às outras, indefinidamente... a vida neste orbe não passa de uma imensa bolha de sabão, rumando aleatoriamente até sua completa desaparição.
Seguiu-se um silêncio em que os dois cavalheiros regozijavam-se intimamente, por estarem imunes à ilusão geral da humanidade, enquanto observavam as bolhas reluzentes seguirem suas trajetórias.
Até que o pequeno David, que a tudo ouvia atentamente, perguntou, profundamente intrigado em sua simplicidade infantil:
- Mas tio Alfredo, se a vida é uma bolha de sabão... quem foi que soprou o ar para dentro dela?
domingo, 31 de agosto de 2008
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Começando do meio
Sempre me encantei com os textos que começam da metade. Na sexta série, o livro de português e gramática me deu de presente este poemículo, que fui encontrar uns dez anos depois.
E chove.
Uma goteira, fora,
Como alguém que chora de mágoa
Canta, monótona e sonora
A balada do pingo d'água.
Chovia quando foste embora...
Ribeiro Couto
(não faço nem idéia de quem seja esse cara)
E chove.
Uma goteira, fora,
Como alguém que chora de mágoa
Canta, monótona e sonora
A balada do pingo d'água.
Chovia quando foste embora...
Ribeiro Couto
(não faço nem idéia de quem seja esse cara)
Just for the record
You know I don't like being stuck in the crowd.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Pronto
Blog reativado! Por esporte.
Essas foram as antigas... algumas meio escuras. As próximas, eu prometo que serão bem mais claras!
Essas foram as antigas... algumas meio escuras. As próximas, eu prometo que serão bem mais claras!
Seis
Escrevi, e veja só
Nada de novo a acrescentar
Somente a mesma linha de vida
A desfiar, desfiar...
Nada é novo neste mundo,
No que tange ao ser humano;
A linha é a mesma, embora a agulha
Dê diferente aspecto ao pano
A mesma música... a mesma rima
Anda à frente e atrás, no escuro
Onde então estará o avanço
De quem não decidiu seu rumo?
Nada de novo a acrescentar
Somente a mesma linha de vida
A desfiar, desfiar...
Nada é novo neste mundo,
No que tange ao ser humano;
A linha é a mesma, embora a agulha
Dê diferente aspecto ao pano
A mesma música... a mesma rima
Anda à frente e atrás, no escuro
Onde então estará o avanço
De quem não decidiu seu rumo?
Hesitei
Hesitei.
Não pude dizer-te o quanto me sabia
E, nesse esforço de não falar,
Acabei contando-te mais do que poderia
Valesse-me de todas as palavras.
Ai de nós!... já nem o sei
Não falei demais e, todavia,
Agora mais sabes de mim
Do que eu próprio jamais saberei.
Não pude dizer-te o quanto me sabia
E, nesse esforço de não falar,
Acabei contando-te mais do que poderia
Valesse-me de todas as palavras.
Ai de nós!... já nem o sei
Não falei demais e, todavia,
Agora mais sabes de mim
Do que eu próprio jamais saberei.
Autopsicografia II
Lapido um carvão para exibir-te como diamante.
Sou um pouco de todos e nada de mim.
Que seria eu despido dos outros?
Não sei. Finjo não querer ver-me nu, ou pessoa.
Então, não queiras abrir-me os olhos; eu já os tenho abertos.
Vejo em ti a imagem de mim refletindo a sombra dos outros.
Vês? Somos todos fingidores.
Sou um pouco de todos e nada de mim.
Que seria eu despido dos outros?
Não sei. Finjo não querer ver-me nu, ou pessoa.
Então, não queiras abrir-me os olhos; eu já os tenho abertos.
Vejo em ti a imagem de mim refletindo a sombra dos outros.
Vês? Somos todos fingidores.
O hiato
Não está passando, pensou para si o rapaz, sentando-se no centro de um dos quatro bancos de pedra acinzentada da praça ricamente arborizada. Sentia-lhe latejar as têmporas, num círculo dolorido que iniciava atrás dos olhos, percorrendo o couro cabeludo até a nuca, uma dor aguda e insistente ao ponto de lhe causar náuseas. O contato da pedra fria, atravessando o fino tecido de algodão do abrigo, com a pele aquecida, acompanhou-se de uma espécie de choque leve e curto, fazendo-o esquecer momentaneamente a dor que lhe torturava o cérebro.
Desde pequeno acostumara-se, de certa forma, a essas crises de enxaqueca. Os anos, e talvez os hábitos mais regrados a que todos somos compelidos ao tornarmo-nos adultos, fizeram com que os episódios ficassem menos freqüentes, embora não menos doloridos. Também o tempo ensinou-o que, ao contrário do que receitavam os todos os tipos de entendidos, trancar-se num quarto fechado e escuro aumentava-lhe as dores; sua constituição física forte, talvez, exigia dele ambiente aberto e ar puro para drenar a dor, não obstante a fotosensibilidade causada por seu cérebro superexcitado.
Assim, sentado em seu banco, distraía-se sentindo o frio da madrugada recente ceder, a pouco e pouco, às vigorosas investidas da luminosa manhã de abril. Os últimos resquícios do verão mal podiam ser percebidos, frente a exuberância dos sinais outonais. O ar fresco trazia, em notas doces, o perfume úmido da terra orvalhada, enquanto folhas amareladas, cansadas e envelhecidas pelo sol do verão, desprendiam-se dos galhos e, em seus últimos suspiros, desenhavam leves círculos no espaço vazio antes de deitarem-se ao chão.
O rapaz, olhos semicerrados em contraponto à abundante luminosidade, procura na movimentação da praça algo em que possa abstrair da dor. Uma senhora, lenço estampado de flores em tons pastéis à cabeça, caminha pesadamente com sua sacola de vime repleta de verduras. Absorta em si mesma, escolhe entre os tomates os que mais lhe agradam, com a velocidade e precisão quase displicente de quem sabe de antemão - por uma espécie de pressentimento, ou algo que o valha - o que cabe levar e o que cabe refugar.
Mais adiante, vendedores se acotovelam verbalmente na atmosfera transbordante de chamados, interjeições e conversas. O rapaz fecha os olhos e deixa-se adentrar nesse cipoal de vozes, separando pela atenção alguma fala destacada, uma emoção mais aflorada, ou o agudo estridente de uma senhora gorda.
A cabeça dói. Não é possível exigir demais. Abre os olhos e pousa-os na tenda à esquerda. Parece ser uma família, pai amorenado pelo trabalho no sol, mãe em atividade frenética, irmãos esticando-se para entregar verduras e recolher dinheiro...
Mas que curioso. No meio da movimentação geral, uma menina destoa em sua atitude reflexiva. O cabelo preso em trança deixa escapar alguns fios que rebelaram-se frente à lida do trabalho, o rosto pequeno e anguloso emoldura dois olhos muito abertos, parados e distantes. Está olhando para dentro de si ou revendo outras paisagens?
É quase uma imagem congelada, uma fotografia inserida em um filme. Pequenos movimentos involuntários faz seu corpo, talvez para manter o equilíbrio; como se sua alma estivesse ausente, presa apenas pela fulguração invertida, apontando para dentro, daqueles olhos fixos numa história narrada apenas para si mesma. A boca semi-aberta parece suspender a respiração, criando um hiato no continuum de vida... sim, é como se a vida estivesse sendo sustentada por uma tênue linha de respiração, uma delicadeza, uma doce permissão de estar presente e em outro lugar em um mesmo instante. Toda sua atenção e energia concentra-se nesse ponto não-conhecido do espaço-tempo, numa pequena fração de não-existência, um alívio para o constante e surdo penar de se estar vivo.
Penar de estar vivo? Só pode ser a enxaqueca. Um irmão esbarra na menina e ela volta imediatamente à realidade. Desfaz-se o hiato na mesma impossibilidade em que teve origem.
Preciso de um analgésico, não vai passar.
Desde pequeno acostumara-se, de certa forma, a essas crises de enxaqueca. Os anos, e talvez os hábitos mais regrados a que todos somos compelidos ao tornarmo-nos adultos, fizeram com que os episódios ficassem menos freqüentes, embora não menos doloridos. Também o tempo ensinou-o que, ao contrário do que receitavam os todos os tipos de entendidos, trancar-se num quarto fechado e escuro aumentava-lhe as dores; sua constituição física forte, talvez, exigia dele ambiente aberto e ar puro para drenar a dor, não obstante a fotosensibilidade causada por seu cérebro superexcitado.
Assim, sentado em seu banco, distraía-se sentindo o frio da madrugada recente ceder, a pouco e pouco, às vigorosas investidas da luminosa manhã de abril. Os últimos resquícios do verão mal podiam ser percebidos, frente a exuberância dos sinais outonais. O ar fresco trazia, em notas doces, o perfume úmido da terra orvalhada, enquanto folhas amareladas, cansadas e envelhecidas pelo sol do verão, desprendiam-se dos galhos e, em seus últimos suspiros, desenhavam leves círculos no espaço vazio antes de deitarem-se ao chão.
O rapaz, olhos semicerrados em contraponto à abundante luminosidade, procura na movimentação da praça algo em que possa abstrair da dor. Uma senhora, lenço estampado de flores em tons pastéis à cabeça, caminha pesadamente com sua sacola de vime repleta de verduras. Absorta em si mesma, escolhe entre os tomates os que mais lhe agradam, com a velocidade e precisão quase displicente de quem sabe de antemão - por uma espécie de pressentimento, ou algo que o valha - o que cabe levar e o que cabe refugar.
Mais adiante, vendedores se acotovelam verbalmente na atmosfera transbordante de chamados, interjeições e conversas. O rapaz fecha os olhos e deixa-se adentrar nesse cipoal de vozes, separando pela atenção alguma fala destacada, uma emoção mais aflorada, ou o agudo estridente de uma senhora gorda.
A cabeça dói. Não é possível exigir demais. Abre os olhos e pousa-os na tenda à esquerda. Parece ser uma família, pai amorenado pelo trabalho no sol, mãe em atividade frenética, irmãos esticando-se para entregar verduras e recolher dinheiro...
Mas que curioso. No meio da movimentação geral, uma menina destoa em sua atitude reflexiva. O cabelo preso em trança deixa escapar alguns fios que rebelaram-se frente à lida do trabalho, o rosto pequeno e anguloso emoldura dois olhos muito abertos, parados e distantes. Está olhando para dentro de si ou revendo outras paisagens?
É quase uma imagem congelada, uma fotografia inserida em um filme. Pequenos movimentos involuntários faz seu corpo, talvez para manter o equilíbrio; como se sua alma estivesse ausente, presa apenas pela fulguração invertida, apontando para dentro, daqueles olhos fixos numa história narrada apenas para si mesma. A boca semi-aberta parece suspender a respiração, criando um hiato no continuum de vida... sim, é como se a vida estivesse sendo sustentada por uma tênue linha de respiração, uma delicadeza, uma doce permissão de estar presente e em outro lugar em um mesmo instante. Toda sua atenção e energia concentra-se nesse ponto não-conhecido do espaço-tempo, numa pequena fração de não-existência, um alívio para o constante e surdo penar de se estar vivo.
Penar de estar vivo? Só pode ser a enxaqueca. Um irmão esbarra na menina e ela volta imediatamente à realidade. Desfaz-se o hiato na mesma impossibilidade em que teve origem.
Preciso de um analgésico, não vai passar.
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