domingo, 31 de agosto de 2008

A bolha de sabão

Os dois amigos, sentados à varanda, serviam-se de chá e teciam comentários a respeito da vida. As esposas haviam entrado para tratar de assuntos domésticos, enquanto junto deles o pequeno David entretinha-se a brincar com bolhas de sabão.

- Sem dúvidas, meu amigo. Foi um grande passo para a inteligência do homem, quando o pensamento científico rompeu os grilhões da ilusão religiosa e arrancou o povo da ignorância. Hegel muito claramente definiu esta questão, quando declarou que a religião é o ópio do povo. “O homem faz a religião, a religião não faz o homem”, disse ele, acrescentando que vivemos num mundo invertido. Deus é tido pela massa como o criador da vida, mas o que se sucede é o contrário. O homem criou Deus para conferir sentido à sua existência medíocre.

- É fato, Alfredo. Assim, dá-se à idéia de um ser superior a explicação da vida, sendo que esse próprio ser é inexplicável. Muda-se apenas o endereço do mistério.

- Correto, Vagner. Deus é a fuga dos fracos para a ausência de sentido da vida. Esta não é mais do que um acidente de percurso do universo. Imagine... não passamos de poeira estelar. Em todo o vasto espaço sideral, há somente matéria e gravidade, afetando-se mutuamente, rumando para a destruição. Qual o sentido da vida, tendo nascido numa mancha escura qual é o nosso planeta, quase no extremo de uma galáxia perdida entre milhares de outras galáxias? Deus? Santa ignorância, isso sim! Te ris, não é mesmo? E é deveras ridículo. Frente à idade do universo, a vida na Terra é apenas um ínfimo instante, uma minúscula parcela de tempo, uma convergência de probabilidades que gerou a exceção que somos eu e tu, nossos ancestrais e todas as formas de vida nessa nau azul, rumando para a completa extinção, pois nada é constante no universo. Veja essas bolhas de sabão. São a ilustração da vida. A esfera de sabão surge, carregando em seu interior um amontoado mais ou menos coerente de virtudes e vícios, esperanças e ilusões, e persiste em sua breve existência, ascendendo ou decaindo, até desfazer-se instantaneamente... e o que sobra? Nada, meu amigo, apenas ar. O nada era antes, e nada se torna depois. A explicação é simples: não há Deus. Apenas bolhas de sabão, seguindo-se umas às outras, umas às outras, indefinidamente... a vida neste orbe não passa de uma imensa bolha de sabão, rumando aleatoriamente até sua completa desaparição.

Seguiu-se um silêncio em que os dois cavalheiros regozijavam-se intimamente, por estarem imunes à ilusão geral da humanidade, enquanto observavam as bolhas reluzentes seguirem suas trajetórias.

Até que o pequeno David, que a tudo ouvia atentamente, perguntou, profundamente intrigado em sua simplicidade infantil:

- Mas tio Alfredo, se a vida é uma bolha de sabão... quem foi que soprou o ar para dentro dela?

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Começando do meio

Sempre me encantei com os textos que começam da metade. Na sexta série, o livro de português e gramática me deu de presente este poemículo, que fui encontrar uns dez anos depois.

E chove.

Uma goteira, fora,
Como alguém que chora de mágoa
Canta, monótona e sonora
A balada do pingo d'água.

Chovia quando foste embora...

Ribeiro Couto
(não faço nem idéia de quem seja esse cara)

Just for the record

You know I don't like being stuck in the crowd.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Pronto

Blog reativado! Por esporte.

Essas foram as antigas... algumas meio escuras. As próximas, eu prometo que serão bem mais claras!

Seis

Escrevi, e veja só
Nada de novo a acrescentar
Somente a mesma linha de vida
A desfiar, desfiar...

Nada é novo neste mundo,
No que tange ao ser humano;
A linha é a mesma, embora a agulha
Dê diferente aspecto ao pano

A mesma música... a mesma rima
Anda à frente e atrás, no escuro
Onde então estará o avanço
De quem não decidiu seu rumo?

Hesitei

Hesitei.
Não pude dizer-te o quanto me sabia
E, nesse esforço de não falar,
Acabei contando-te mais do que poderia
Valesse-me de todas as palavras.

Ai de nós!... já nem o sei
Não falei demais e, todavia,
Agora mais sabes de mim
Do que eu próprio jamais saberei.

Autopsicografia II

Lapido um carvão para exibir-te como diamante.
Sou um pouco de todos e nada de mim.
Que seria eu despido dos outros?
Não sei. Finjo não querer ver-me nu, ou pessoa.
Então, não queiras abrir-me os olhos; eu já os tenho abertos.
Vejo em ti a imagem de mim refletindo a sombra dos outros.
Vês? Somos todos fingidores.

O hiato

Não está passando, pensou para si o rapaz, sentando-se no centro de um dos quatro bancos de pedra acinzentada da praça ricamente arborizada. Sentia-lhe latejar as têmporas, num círculo dolorido que iniciava atrás dos olhos, percorrendo o couro cabeludo até a nuca, uma dor aguda e insistente ao ponto de lhe causar náuseas. O contato da pedra fria, atravessando o fino tecido de algodão do abrigo, com a pele aquecida, acompanhou-se de uma espécie de choque leve e curto, fazendo-o esquecer momentaneamente a dor que lhe torturava o cérebro.

Desde pequeno acostumara-se, de certa forma, a essas crises de enxaqueca. Os anos, e talvez os hábitos mais regrados a que todos somos compelidos ao tornarmo-nos adultos, fizeram com que os episódios ficassem menos freqüentes, embora não menos doloridos. Também o tempo ensinou-o que, ao contrário do que receitavam os todos os tipos de entendidos, trancar-se num quarto fechado e escuro aumentava-lhe as dores; sua constituição física forte, talvez, exigia dele ambiente aberto e ar puro para drenar a dor, não obstante a fotosensibilidade causada por seu cérebro superexcitado.

Assim, sentado em seu banco, distraía-se sentindo o frio da madrugada recente ceder, a pouco e pouco, às vigorosas investidas da luminosa manhã de abril. Os últimos resquícios do verão mal podiam ser percebidos, frente a exuberância dos sinais outonais. O ar fresco trazia, em notas doces, o perfume úmido da terra orvalhada, enquanto folhas amareladas, cansadas e envelhecidas pelo sol do verão, desprendiam-se dos galhos e, em seus últimos suspiros, desenhavam leves círculos no espaço vazio antes de deitarem-se ao chão.

O rapaz, olhos semicerrados em contraponto à abundante luminosidade, procura na movimentação da praça algo em que possa abstrair da dor. Uma senhora, lenço estampado de flores em tons pastéis à cabeça, caminha pesadamente com sua sacola de vime repleta de verduras. Absorta em si mesma, escolhe entre os tomates os que mais lhe agradam, com a velocidade e precisão quase displicente de quem sabe de antemão - por uma espécie de pressentimento, ou algo que o valha - o que cabe levar e o que cabe refugar.

Mais adiante, vendedores se acotovelam verbalmente na atmosfera transbordante de chamados, interjeições e conversas. O rapaz fecha os olhos e deixa-se adentrar nesse cipoal de vozes, separando pela atenção alguma fala destacada, uma emoção mais aflorada, ou o agudo estridente de uma senhora gorda.

A cabeça dói. Não é possível exigir demais. Abre os olhos e pousa-os na tenda à esquerda. Parece ser uma família, pai amorenado pelo trabalho no sol, mãe em atividade frenética, irmãos esticando-se para entregar verduras e recolher dinheiro...

Mas que curioso. No meio da movimentação geral, uma menina destoa em sua atitude reflexiva. O cabelo preso em trança deixa escapar alguns fios que rebelaram-se frente à lida do trabalho, o rosto pequeno e anguloso emoldura dois olhos muito abertos, parados e distantes. Está olhando para dentro de si ou revendo outras paisagens?

É quase uma imagem congelada, uma fotografia inserida em um filme. Pequenos movimentos involuntários faz seu corpo, talvez para manter o equilíbrio; como se sua alma estivesse ausente, presa apenas pela fulguração invertida, apontando para dentro, daqueles olhos fixos numa história narrada apenas para si mesma. A boca semi-aberta parece suspender a respiração, criando um hiato no continuum de vida... sim, é como se a vida estivesse sendo sustentada por uma tênue linha de respiração, uma delicadeza, uma doce permissão de estar presente e em outro lugar em um mesmo instante. Toda sua atenção e energia concentra-se nesse ponto não-conhecido do espaço-tempo, numa pequena fração de não-existência, um alívio para o constante e surdo penar de se estar vivo.

Penar de estar vivo? Só pode ser a enxaqueca. Um irmão esbarra na menina e ela volta imediatamente à realidade. Desfaz-se o hiato na mesma impossibilidade em que teve origem.

Preciso de um analgésico, não vai passar.