Não está passando, pensou para si o rapaz, sentando-se no centro de um dos quatro bancos de pedra acinzentada da praça ricamente arborizada. Sentia-lhe latejar as têmporas, num círculo dolorido que iniciava atrás dos olhos, percorrendo o couro cabeludo até a nuca, uma dor aguda e insistente ao ponto de lhe causar náuseas. O contato da pedra fria, atravessando o fino tecido de algodão do abrigo, com a pele aquecida, acompanhou-se de uma espécie de choque leve e curto, fazendo-o esquecer momentaneamente a dor que lhe torturava o cérebro.
Desde pequeno acostumara-se, de certa forma, a essas crises de enxaqueca. Os anos, e talvez os hábitos mais regrados a que todos somos compelidos ao tornarmo-nos adultos, fizeram com que os episódios ficassem menos freqüentes, embora não menos doloridos. Também o tempo ensinou-o que, ao contrário do que receitavam os todos os tipos de entendidos, trancar-se num quarto fechado e escuro aumentava-lhe as dores; sua constituição física forte, talvez, exigia dele ambiente aberto e ar puro para drenar a dor, não obstante a fotosensibilidade causada por seu cérebro superexcitado.
Assim, sentado em seu banco, distraía-se sentindo o frio da madrugada recente ceder, a pouco e pouco, às vigorosas investidas da luminosa manhã de abril. Os últimos resquícios do verão mal podiam ser percebidos, frente a exuberância dos sinais outonais. O ar fresco trazia, em notas doces, o perfume úmido da terra orvalhada, enquanto folhas amareladas, cansadas e envelhecidas pelo sol do verão, desprendiam-se dos galhos e, em seus últimos suspiros, desenhavam leves círculos no espaço vazio antes de deitarem-se ao chão.
O rapaz, olhos semicerrados em contraponto à abundante luminosidade, procura na movimentação da praça algo em que possa abstrair da dor. Uma senhora, lenço estampado de flores em tons pastéis à cabeça, caminha pesadamente com sua sacola de vime repleta de verduras. Absorta em si mesma, escolhe entre os tomates os que mais lhe agradam, com a velocidade e precisão quase displicente de quem sabe de antemão - por uma espécie de pressentimento, ou algo que o valha - o que cabe levar e o que cabe refugar.
Mais adiante, vendedores se acotovelam verbalmente na atmosfera transbordante de chamados, interjeições e conversas. O rapaz fecha os olhos e deixa-se adentrar nesse cipoal de vozes, separando pela atenção alguma fala destacada, uma emoção mais aflorada, ou o agudo estridente de uma senhora gorda.
A cabeça dói. Não é possível exigir demais. Abre os olhos e pousa-os na tenda à esquerda. Parece ser uma família, pai amorenado pelo trabalho no sol, mãe em atividade frenética, irmãos esticando-se para entregar verduras e recolher dinheiro...
Mas que curioso. No meio da movimentação geral, uma menina destoa em sua atitude reflexiva. O cabelo preso em trança deixa escapar alguns fios que rebelaram-se frente à lida do trabalho, o rosto pequeno e anguloso emoldura dois olhos muito abertos, parados e distantes. Está olhando para dentro de si ou revendo outras paisagens?
É quase uma imagem congelada, uma fotografia inserida em um filme. Pequenos movimentos involuntários faz seu corpo, talvez para manter o equilíbrio; como se sua alma estivesse ausente, presa apenas pela fulguração invertida, apontando para dentro, daqueles olhos fixos numa história narrada apenas para si mesma. A boca semi-aberta parece suspender a respiração, criando um hiato no continuum de vida... sim, é como se a vida estivesse sendo sustentada por uma tênue linha de respiração, uma delicadeza, uma doce permissão de estar presente e em outro lugar em um mesmo instante. Toda sua atenção e energia concentra-se nesse ponto não-conhecido do espaço-tempo, numa pequena fração de não-existência, um alívio para o constante e surdo penar de se estar vivo.
Penar de estar vivo? Só pode ser a enxaqueca. Um irmão esbarra na menina e ela volta imediatamente à realidade. Desfaz-se o hiato na mesma impossibilidade em que teve origem.
Preciso de um analgésico, não vai passar.
2 comentários:
Tri!
Beleza o parágrafo sobre a menina! Parei no tempo junto com ela!
Caí na realidade com o analgésico! hahahahaha
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